O escritor é o melhor gestor de sua marca 

Escrever é tarefa dolorosa, sabe-se. Embora conheça escritores prolíficos, que dizem transbordar as palavras e naturalmente preencher telas e telas em branco, a maioria confessa (já confessou em diversos registros) se tratar de tarefa amarga. Portanto, o autor que se vê extenuado ao fim da edição de uma nova obra tem minha compreensão e total solidariedade. Aliás, todos os profissionais do mercado editorial têm o meu mais profundo respeito. No entanto, confesso aqui a minha perplexidade diante de escritores que, após a publicação de um título, negam-se a divulgá-lo como se fosse uma tarefa intelectualmente menor, sem importância ou relegada apenas à assessoria de imprensa.

Sim, estamos em 2016 e alguns profissionais se dizem ocupados demais para divulgar suas obras. Com a internet rápida, móvel e em rede, nunca foi tão fácil encontrar o leitor (que está on-line — aqui no Skoob somos quase quatro milhões reunidos!) e ainda assim alguns escritores continuam acreditando que somente uma matéria positiva em jornal, revista ou televisão fará com que seus livros sejam lidos. A ilusão de que crítica ou matéria na imprensa são imprescindíveis para se vender livro precisa cessar. Meu intento aqui é instigá-los a enxergar a necessidade de serem mais atuantes diante dessa parte do processo da publicação e, principalmente, contribuir para uma reflexão sobre como o escritor pode se fortalecer e ser o protagonista da divulgação de sua obra.

Pano rápido, apenas uma verdade que compreendi nos meus 16 anos de experiência em comunicação corporativa (mais de 12 deles dedicados ao mercado editorial) é que todo escritor quer ser lido. E a leitura dos tradicionais formadores de opinião é importante para os compradores das grandes redes de livrarias, para leitores mais tradicionais, para outros escritores e jornalistas. Mas em um cenário de enxugamento das redações, sobrecarga dos profissionais e diminuição do número de páginas/tempo dos veículos dedicados à cultura, é impossível cobrir todos os lançamentos desejados. Construídos com base em um modelo de negócios sustentado por anunciantes, os veículos de comunicação sofrem hoje com a falência desse modelo e buscam se reinventar. Este cenário não é exclusivo do Brasil: o mercado norte-americano também enfrenta problemas similares na distribuição, queda de vendas em banca e em assinaturas, diminuição de receita etc. Papo para outra coluna.

Dito isto, voltando aos escritores, toda aquela pose de que “não estou nem aí para a lista de best-sellers, prefiro os prêmios literários e poder expressar a minha arte” — por favor, pare. Não há nada de errado em querer ser um best-seller, é um grande sonho e seria a vocação primária de todo livro que, como digo ali em cima, tem a função de ser lido. Repito o meu intento de que este texto provoque o autor, parte do mercado editorial que pode, apesar dos altos e baixos, tomar para si a responsabilidade de divulgar os seus livros e não apenas se apoiar na editora ou na falta dela.

Não quero desfazer aqui do fundamental trabalho de outras áreas da editora, como se o sucesso de uma obra fosse possível apenas com uma boa comunicação. Sem um departamento comercial atuante e uma distribuição forte, além do editorial capaz de produzir um produto de qualidade, as chances de um livro se tornar um best-seller são ínfimas, quase um milagre. (Mas eu já vi acontecer.) Ressalto a importância da comunicação porque é a minha área de atuação e porque sem ela tampouco se faz qualquer coisa. E reforço mais uma vez a necessidade de o autor entrar ativamente em campo, não apenas os escritores independentes, o que seria mais natural, mas também aqueles que têm a felicidade de serem publicados por grandes editoras.

Diante de um catálogo numeroso, com uma dezena (às vezes algumas dezenas) de lançamentos mensais, é compreensível que títulos muito bons sejam preteridos na comunicação dessas casas editoriais com as livrarias, no contato direto com leitores via redes sociais ou na imprensa. Na realidade já ouvi inúmeras vezes que não é possível divulgar todos os títulos publicados mensalmente. E, para equacionar os custos (o desconto sobre o preço de capa para as livrarias, os altos investimentos solicitados para ações em PDV, anúncios em mídia, confecção de peças etc.), as editoras precisam priorizar as apostas: os livros com maior potencial comercial e/ou identificação com a marca recebem maior investimento e atenção da empresa.

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O que fazer quando o seu livro não é uma aposta? Não aconselho ao escritor dispensar nenhum parceiro no trabalho de divulgação, apenas somar esforços. Vamos por etapas:

1) Assessoria de imprensa: se há uma editora que possui uma assessoria de imprensa atuante, conte com ela. Se porventura não tiver editora ou se esta não tiver uma assessoria, contrate uma — o contato com jornalistas não deve ser feito por amadores. Cabe aqui uma autocrítica: seu livro gera mesmo interesse jornalístico? Um bom assessor deve ser capaz de lhe responder essa pergunta com isenção. Caso não seja interessante para a imprensa, não desista da divulgacão. Observe que este canal simplesmente não é o melhor para você no momento.

2) Redes sociais: independentemente de haver uma editora com presença em redes sociais, tenha a sua audiência on-line. Em outras palavras: tenha uma página no Facebook. Outra rede social essencial para todo escritor é o Skoob — crie sua página de autor no Skoob. O diálogo estreito e direto com os leitores é fundamental e insubstituível! Neste quesito, aqui vão algumas dicas práticas e rápidas:

a) nada disso vale a pena, no entanto, se você não estiver lá. Portanto, poste conteúdo, dialogue e interaja com quem o lê. No primeiro momento, seus parentes e amigos serão o seu público. Mesmo sem nenhuma curtida, sem nenhum comentário, persista, não pare de postar conteúdo. Mude o tema, busque outras ferramentas — alterne entre fotos, vídeos, lives e links. Lembre-se, apenas não pare.

b) tenha consistência, publique com frequência e mantenha a assiduidade. Não deixe de responder e interagir. É trabalhoso, mas esse é o consumidor das suas palavras, das suas ideias e dos seus livros — continue a construir a sua audiência.

c) seja criativo, gentil e bem-humorado. As redes sociais já são campo fértil para paixões e ódios inflamados. Minha sugestão é de que sejamos mais leves a fim de unir, agregar e tornar o diálogo mais fluido, divertido e informativo.

Acredito que o autor possa e deva conduzir a gestão de sua marca (seu nome), em seu benefício, em apoio ao seu livro e ao trabalho da editora. O tema é longo, merece atenção e análise com lupa. Há outros players e canais de divulgação que não foram citados e outros que precisam ser mais bem destrinchados, como, o Skoob, os booktubers, os blogueiros, os clubes de leituras, entre outros. Continuaremos na próxima coluna. Até lá!

Juliana CirneJuliana Cirne é especialista em comunicação corporativa, assessoria de imprensa e social media.

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