Microcontos: entenda e aprenda a admirá-los

Eles podem ser chamados de miniconto, ou microconto, ou nanoconto. Não importa. Trata-se de um pequeno texto, geralmente com uma ou duas frases e transmitindo uma reflexão ao leitor. No primeiro momento, muitos estranham esta estética, porém, um olhar mais reflexivo diante daqueles poucos caracteres podem revelar pensamentos que vão muito além da escrita. A tarefa de preencher o significado da reflexão está com o leitor que, muitas vezes, acaba encontrando outras formas de compreensão cujo nem mesmo o autor havia pensado.

Assim como acontece em filmes que terminam sem efetivamente terminar, encontraremos pessoas que amam e outras que odeiam os microcontos. Uma coisa eu posso garantir: uma vez que se pára para refletir diante de um microconto e se compreende sua essência, você talvez se surpreenda com uma vontade incomensurável de escrever os seus. E digo que vale a tentativa!

Cada pequeno texto pode conter diversos tipos de reflexões. Do drama ao cômico, uma simples frase pode até mesmo causar sensação de angústia e desconforto.

Vende-se: sapatos de bebê, sem uso.

Ernest Hemingway escreveu este microconto acima. A princípio, uma frase sem significado e sem qualquer importância a um olhar superficial e pouco crítico. Avaliando com um pouco mais de profundidade e sensibilidade, é possível perceber que há uma história de dor e possível perda de um bebê recém nascido e seus sapatos estão sendo vendidos sem que eles tivessem sido sequer experimentados.

Um dos autores mais famosos na arte de fazer microcontos é o guatemalteco Augusto Monterroso. Ele fez, com apenas 37 caracteres, um dos mais famosos microcontos já escritos.

Quando ele abriu os olhos, o dinossauro ainda estava lá.

Apesar de ter uma característica muito peculiar e distinta dos “contos pequenos”, os microcontos ainda não são reconhecidos como um gênero literário à parte.

Os leitores mais frequentes das postagens do Skoob no Facebook e Instagram talvez já tenham se deparado com alguns microcontos escritos por Marcos Bassini. Para trazer um pouco mais de informação a vocês, caros leitores, decidimos fazer uma breve entrevista com ele para que todos possam ter a visão do autor sobre este tipo de escrita e também conhecer um pouco mais sobre quem está por trás dessas ideias transmitidas em curtas frases.


 

Entrevista com o publicitário e autor de microcontos Marcos Bassini:

Skoob: Como você percebeu que tinha vocação para escrever?
Bassini: Quando eu era criança existia um seriado chamado “Os Waltons” em que o personagem principal era um escritor. A “vocaçâo” para escrever surgiu antes mesmo de escrever e tinha o nome de “vontade”.

Skoob: O que são microcontos e qual é a verdadeira essência desses pequenos textos?
Bassini: Microcontos são contos de aproximadamente uma frase ou duas (o tamanho dela é bem variável), mas prefiro aqueles que têm no máximo 140 caracteres. O grande mestre do microconto é o guatemalteco Augusto Monterosso, com famoso “Quando ele abriu os olhos, o dinossauro ainda estava lá.”

Skoob: Como esses microcontos surgiram na sua vida?
Bassini: O Twitter foi a minha escola. Quando eu me toquei que qualquer reflexão cabia em 140 caracteres, entendi que o mesmo se aplicava às histórias.

Skoob: Qual você considera o seu melhor Microconto? Por quê?
Bassini: O que eu mais gosto não é o mais popular, porque talvez seja reflexivo demais: “Andava em círculos, sim, mas cada vez menores, por isso sabia que chegaria lá, no centro do alvo que construía.” Gosto dele porque conta uma história e, ao mesmo tempo, mostra que, na verdade, nunca andamos em círculos. Sempre aprendemos durante uma caminhada. Por isso, o lugar em que nos encontramos até pode ser o mesmo. Nós não.

Skoob: Quais são seus escritores de Microcontos favoritos?
Bassini: Além do Monterosso não podemos esquecer do Hemingway, que fez o incrível “Vende-se sapatos de bebê. Sem uso.”. E nem dos brasileiros Dalton Trevisan e Marcelino Freire.

Skoob: Qual foi a sua sensação quando, com ajuda da equipe Skoob, começou a ver seus Microcontos ilustrados?
Bassini: Foi uma alegria ver que o desenho podia ajudar a contar ainda melhor a história. E fazer com que a paixão pela narrativa curta chegue a mais gente.

Skoob: De onde vêm os sua inspiração?
Bassini: Sou publicitário e, por isso, aprendi que a gente não pode esperar a inspiração. A gente trabalha e torce para que a inspiração apareça. Aparecendo ou não, o microconto sai. A diferença é que, com inspiração, ele sai beeem melhor.

Skoob: Que tipo de escritor/livro te influenciou no começo?
Bassini: Antigamente eu era fã de José Saramago, Gonçalo M. Tavares, Cervantes e Ítalo Calvino

Skoob: E agora? Quais são os escritores e livros que te inspiram?
Bassini: Continuo fã desses quatro, mas vou acrescentar o Shakespeare, que aprendi a entender melhor depois que li o livro “Hamlet, poema ilimitado”, do Harold Bloom.

Skoob: Qual de suas obras/personagens é seu favorito? Por quê?
Bassini: Acho que “Dom Quixote” é um personagem obrigatório. E é um livro obrigatório, já que o Cervantes conseguiu fazer uma metalinguagem que até hoje, séculos, continua moderna.

Skoob: Gostaria de acrescentar algo?
Bassini: Queria pedir que os leitores desde já comecem a treinar microcontos. Porque em breve, junto com o Skoob, a gente vai fazer um concurso para escolher o melhor microconto dos skoobers. Ah, e claro: quando gostar de algum microconto, por favor: compartilhe 😉


 

Algumas das imagens de microcontos publicadas no nosso Facebook e Instagram:

bassini-microcontos


 

Sobre o Marcos Bassini

bassini-perfilMarcos Bassini é redator e trabalhou em agências como Artplan, McCann-Erickson e DPZ. É apresentador do Haicai Combat, slam que faz parte do Slam BR, que todos os anos leva um poeta para representar o país no campeonato mundial, na França. E é autor do livro de poemas Senhorita K (Ed. Patuá).

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